quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Indicação de leitura!




Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos de Paulo Freire 

Angela Marin Pertile – Pedagoga POD Socioeducativo Calábria

Que Paulo Freire é mestre e inspirador é clichê ressaltar, porém não tem como não citar tais elementos após ter contato com sua obra Pedagogia da Indignação - cartas pedagógicas e outros escritos, uma obra que encanta, que emociona, que traduz a realidade com muita responsabilidade, com uma crítica saudável e com força de transformação. Esta obra foi publicada após sua morte, não foi finalizada pelo autor, mas não é por isso que perde seu valor, diria que ela atesta que o mesmo não precisa dizer ‘tudo’ para que tenha dito e ensinado ‘muito’.
Nesta obra estão compilados diferentes textos de Paulo Freire relacionados à notícia, à mídia e aos meios de comunicação. Ela traz críticas a acontecimentos que viraram “notícia” e causaram grande comoção, e até indignação nacional como é o caso do assassinato brutal do índio pataxó por jovens de classe média alta no Dia do Índio, em Brasília; a forma como as comemorações dos 500 Anos do “Descobrimento” das Américas por Cristovão Colombo se deram; e o fato trágico da família pernambucana que teve a fatalidade de recolher no lixo hospitalar um seio feminino amputado, e o qual prepararam o almoço de domingo.
Junto a tantos elementos, o autor analisa a situação da educação, com nenhuma neutralidade e muita historicidade, já que o nosso próprio modelo de educação está diretamente ligado a ideologias, estas mantidas e constantemente reproduzidas pelas elites dominantes para a manutenção da sociedade de classes e da supremacia do status quo. Paulo Freire acredita na transformação do mundo, não a considera uma tarefa fácil, mas sonha, acredita e, principalmente, pensa uma educação humanista na formação de indivíduos críticos, mais humanos, que entendam a necessidade de lutar, para que assim possam ser capazes de mudar o mundo.
Se pensarmos na nossa educação, na atualidade, a enxergamos inserida em um contexto econômico neoliberal e assim, consequentemente, voltada para os interesses do mercado, onde aspectos como o individualismo, a concorrência e o mérito pessoal são universais. Ao enxergarmos assim nossa educação, poderíamos nos aquietar e acomodar diante desta realidade, nos alienarmos e acomodarmos num conformismo que Paulo Freire tanto condena, ele é contrário a qualquer atitude alienada e acrítica, como sentenças fatalistas do tipo “o sistema é assim mesmo”, “é assim que Deus quer”, “o mundo é desse jeito mesmo, ninguém pode mudá-lo”. É através da nossa crítica a este determinismo que podemos fazer nossa parte. Se o mundo é regido por leis deterministas e imutáveis, ele anula qualquer forma de individualidade, ética, decisão, liberdade e responsabilidade. Assim todos nós temos a capacidade e também o dever de mudarmos o mundo, pois temos o nosso livre arbítrio.
Devido à própria condição humana, Freire reconhece as limitações reais para a criação de um mundo mais humanizado, mas também considera que estes não são elementos a serem usados pelos indivíduos para que fiquem acomodados, agindo como meros espectadores do mundo e vítimas de consequências como o desemprego, o colonialismo, a espoliação, a dominação de classe, etc.
O autor cita o exemplo dos terremotos: eles existem de fato e é impossível acabar com eles. Mas o ser humano por meio de sua sapiência conseguiu tecnologias e meios para torná-los menos destrutivos. Do mesmo modo se deu a resistência afro-brasileira que com sua “manha” conseguiu que suas culturas não morressem diante da violência da dominação.
Para muitas pessoas, pensar em mudanças, sonhar, planejar algo utópico é ilusão, perda de tempo e, por isso, desnecessário. Para Paulo Freire o ser humano é instrumento de crítica, indignação e mudança, e é por isso, e a partir da curiosidade que lhe é intrínseca, que não se deve consolidar as tais sentenças fatalistas, agindo de forma contrária, protestando, discordando e, acima de tudo, tornando-se agentes de mudanças, para, assim, conquistar-se as mudanças que tanto se deseja, para se chegar a realização dessas utopias que tanto se almeja e se considera tão necessárias.

“Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-la sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, in-viabilizando o amor. Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Se a nossa opção é progressista, se estamos a favor da vida e não da morte, da equipada e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não de sua negação, não temos outro caminho senão viver plenamente a nossa opção. Encarná-la, diminuindo assim a distância entre o que dizemos e o que fazemos.” (FREIRE)


Mas vale a pena a leitura da obra toda!

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