quarta-feira, 31 de julho de 2013

Uma nova forma de educar: desejos e desafios


Autora: Angela Marin Pertile
Pedagoga do POD Socioeducativo Calábria

Ser educador na atualidade implica em um eterno confronto entre desejos e desafios. Questionamentos fazem parte do fazer pedagógico, e estes começam desde as construções de nossas primeiras concepções do fazer docente. Pensar na escola e na educação como um todo, inevitavelmente, desperta um desejo de transformação e muitas inquietações.

Paulo Freire, em sua obra Medo e Ousadia, elenca os principais desafios para esta necessária transformação e também alimenta desejos de concretização. A ideia de uma educação integradora, em que o educando juntamente com o educador constrói, cria e recria o conhecimento, através da partilha de saberes, é o convite que nos faz o autor, ao nos mostrar onde é produzido o conhecimento atualmente: “A educação deve ser integradora, integrando os estudantes e os professores numa criação e recriação do conhecimento comumente partilhadas. O conhecimento, atualmente, é produzido longe das salas de aula, por pesquisadores, acadêmicos, escritores de livros didáticos e comissões oficiais de currículo, mas não é criado e recriado pelos estudantes e pelos professores em sala de aula.” (FREIRE, 1987)

O conhecimento que não me pertence, não me seduz. Quando o aluno é convidado a colocar o seu saber, já constituído por suas vivências e experiências, a serviço da construção de uma nova forma de pensar e construir o saber, este se torna protagonista no processo, motivando-se para continuar avançando no seu aprendizado, de forma crítica e transformadora. A educação percebida do ponto de vista libertador tem, além da tarefa de ensinar de uma forma diferente, livre, através da reciprocidade e principalmente do estímulo da consciência crítica, a tarefa de denunciar a ideologia dominante, e evitar a sua reprodução. A ideia da ideologia dominante, conforme Paulo Freire nos alerta, visa a obscurecer a realidade e evitar a construção da consciência, que é capaz de transformar a sociedade.

Junto com essa tarefa de um novo método de educar vêm os desafios.  O domínio dessa ideologia que perdura no tempo e que limita evoluções e mudanças pode desmoronar num piscar de olhos se não for bem idealizado e construído no nosso ‘sonhar’. Tudo isso que se imagina, e que se pensa ser a forma ‘ideal’ de educar é recebido com grandes muros, por uma escola acomodada e tradicional. E, mesmo que se consiga atravessar esses muros, o desafio da transformação da sociedade continua bastante grande. Os paradigmas escolares já constituídos têm o poder de voltar a ganhar espaço a cada dificuldade promovida por essa nova forma de fazer, uma vez que coloca educador e educando em lugares cômodos e definidos: um ensina, outro aprende e o novo fica para outro dia. Ou seja, a persistência tem que ser diária e constante para que se consiga concretizar, por completo, o verdadeiro objetivo de transformar a sociedade, através da formação de indivíduos desacomodados.

O sonho, o desejo e a inquietação são somente o começo, porém o caminhar, o buscar e o concretizar devem ser ações constantes, para que este projeto não petrifique, não pare no tempo, não fique a esperar a ousadia sempre de outrem para ser realizado. Comecemos em cada sala de aula, nos corredores, na construção de um espaço educador, ajudando a reconstruir e reinventar a nossa educação, tornando-a mais prazerosa, mais crítica e instigante. Que o conhecimento possa ser construído e não transferido, que o professor saiba se colocar no lugar do aluno e com ele aprender, sendo instrumento dessa transformação necessária, para que nossos espaços de formação profissional e humana sejam também espaços de construção de cidadãos críticos e construtores de novas realidades.

"A educação não muda o mundo, a educação muda as pessoas, as pessoas mudam o mundo" (Paulo Freire)

Referência Bibliográficas:
FREIRE, Paulo. Medo e Ousadia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

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